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A Torre de S. Vicente

Falar de Fortificação como ciência só é possível quando se associa à técnica de construção defensiva um carácter científico. No final do séc. XV, a fortificação medieval, devido ao aparecimento da artilharia pirobalística, começou a tornar-se ineficaz. A evolução tornou-se inevitável, sendo o Castelo progressivamente substituído pela Fortaleza. Essa transição pautou-se por distintas formas como, por exemplo, a associação de uma torre medieval a um baluarte. Em Portugal, essa transição era liderada pela Escola Italiana, como aliás no resto da Europa, e vai-se materializar na construção da Torre de Belém, no reinado de D. Manuel I.

A defesa do estuário do Tejo - A construção da Torre de Belém, abaluartada, obedece a um critério racional de defesa do estuário do Tejo, implementado por D. João II, e englobado no plano mais vasto da reorganização geral das forças de terra e mar, plano esse continuado por D. Manuel I, e que viria a proporcionar os meios necessários, humanos e materiais, requeridos pela expansão promovida à escala planetária.
O projecto inicial abarcava um dispositivo integrado que compreendia, como meios fixos, a Fortaleza de Cascais, porventura atalaia e fortaleza avançada, a Torre Velha da margem sul e, em frente a esta, uma bateria, apenas fortificada, situada na zona onde mais tarde se viria a erguer a Torre de Belém. Guarnecidas de grossas bombardas, o tiro cruzado constituía formidável obstáculo a todo e qualquer navio, corsário ou de nação beligerante, que tentasse forçar a Barra. Devido a algumas limitações, como seja a sua grande dispersão, cadência reduzida, alcance insuficiente, construiu-se, por isso e por outros inconvenientes, uma nau de 1000 tonéis, cheia de numerosas peças que complementavam o dispositivo defensivo com uma base de fogo móvel.

E como talvez se julgasse ainda insuficiente a total protecção, também se construíram caravelas equipadas de grossas bombardas, executando tiro de ricochete, técnica inédita até então, e que estariam em posição, prontas a intervir caso necessário.
Este era um plano de grande eficiência, porquanto durante cerca de 30 a 40 anos não se registam queixas das populações, antes vítimas de constantes depredações por parte de corsários de origem norte-africana e norte-europeia. Este plano inédito e pioneiro veio a ser seguido, mais tarde, em todo o território do Império Português de quinhentos, sobretudo no Oriente.

Nova artilharia - Com o decorrer dos tempos surge nova artilharia, diversificada para responder a novos problemas de natureza estratégica e táctica. Surge um novo tipo de navio, desenvolvido entre nós, o primeiro no mundo exclusivamente à vela, destinado ao combate de alto mar: o Galeão. Fundeado a meio do rio Tejo, o "Botafogo" constituía um suporte da linha de defesa do rio. Surge na mesma altura em que é edificada a Torre de Belém (2ª década do séc. XVI).

De salientar que a Torre tem uma configuração única. Existindo grande similitude a nível estrutural com a Torre de Cascais, embora a profusa e bela decoração da de Belém a tornem única. Desde o termo da sua edificação, a Torre de Belém foi artilhada para responder ao 1º plano de defesa da Barra do Tejo, iniciado por D. João II e concluído por D. Manuel I, cuja 1ª fase correspondeu à construção da Torre abaluartada de Cascais, desempenhando a função de vigia, foi continuado com a instalação da Torre Velha (da Caparica ou de S. Sebastião), na margem sul do Tejo, e, possivelmente, com uma bateria fronteira, descoberta, na margem norte.

Prevista pelo seu antecessor, D. Manuel I mandou edificar a Torre de Belém no local próximo à referida bateria, com possibilidades de executar tiro cruzado com a Torre Velha. A Torre de Belém, tal como a fortificação de Cascais e a da Torre Velha, foi projectada tendo em linha de conta os novos condicionalismos técnicos e tácticos decorrentes do aparecimento da artilharia pirobalística. Assim, as bombardeiras encontram-se a pouca altura do nível médio das águas. São de forma rectangular, permitindo bornear as peças, isto é, apontá-las em direcção e possibilitar além do tiro directo o de ricochete.  A Torre serve de atalaia. A muralha é rebaixada e de maior espessura, relativamente ao antigo método de fortificação, que remonta à tradição medieval. Existe similitude entre a arquitectura interior do Baluarte e a dos nossos navios de guerra. Face a tudo isto, a bateria inferior da Torre pode ser totalmente artilhada com material do tipo utilizado no séc. XVI nas fortalezas continentais e ultramarinas.

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